Bem Vindo
Ela se sentou para escrever uma estória. Já fazia tanto tempo que isso não acontecia que as letras demoravam a sair e algumas ainda saíam errado. A música estava posta. O vôo do zangão. Por quê? Bem, pelo simples fato de ser energética e imponente, duas coisas que ela não se sentia no momento, mas acreditou que colocando algo assim para ouvir, o sentimento da música se colocaria sobre os seus.
Não funcionou muito bem. Ela pensou em uma estória de fim do mundo, onde o que ela estivesse escrevendo fosse continuando no mundo real. Alienígenas invadindo ao som de cellos. Bombas explodindo ao som de tambores. Nada disso aconteceu. Nem na vida real, muito menos na estória no papel. Ela começou a se perguntar porque ainda dizíamos isso, sendo que quase ninguém usava papel para escrever uma estória.
Mas, devaneios a parte, ela se forçou a continuar, Korsakov tocando ao fundo a forçava em dobra. Ainda assim, nada vinha. Essa poderia ser uma estória sobre bloqueio de autor. Algo com o qual ela vinha vivendo nos últimos meses. Escreva sobre o que você conhece, certo? E nada era mais real do que isso no momento. Esse vinha sendo seu amigo mais íntimo, tão íntimo que a bloqueia até de ler. Vários livros haviam sido deixados nas trincheiras da vida. Inúmeras estórias começadas e não terminadas. Umas das quais ela nem se lembrava mais.
Isso foi uma loucura. Ela pensou. Tendo certeza absoluta de que esse conto - ela já havia desistido de transformar isso em algo longo como uma história - não passaria de alguns parágrafos. A bem da verdade, no seu âmago ela sabia, seria sorte se ele chegasse a alguns parágrafos.
Às vezes ela passava pelo computador e se perguntava porque havia parado de escrever. De vez em quando se lembrava de suas desculpas. Muita coisa na cabeça. Muito trabalho pra fazer. Muito tédio. Falta de ideias. Isso era tudo mentira. Antigamente, sem tempo e energia, havia passado madrugadas escrevendo sem parar. Não há ninguém para lê-los. Ela pensou, mas isso também não era verdade. Ela se lembrou da ideia de colocá-los na internet. O medo de outras pessoas lendo sua estórias era tão grande quanto a excitação de outras pessoas lendo suas estórias. A antecipação de não apreciarem, não entenderem, simplesmente não gostarem.
Medo sempre foi algo presente em sua vida. Principalmente o medo de falhar. Quantas vezes havia deixado de tentar algo por medo de falhar. E cá está ela, fazendo de novo.
Estórias foram feitas para serem compartilhadas. Ela sabe muito bem disso. E ainda assim. Ainda assim, seu medo a pára de fazê-lo. Mas existe tanta gente ruim em algo no mundo e sem dar a mínima para isso. Talvez se ela fingir ser uma homem. Ela ri. Quantas não fizeram isso antes dela? Quantas não fariam depois?
É isso. Isso não é uma estória. Muito menos um conto. Ela não vai fingir ser outra pessoa. Nem se desculpar por suas ideias. Quem quiser ler, leia. Quem não quiser, passar bem.
Isso é uma introdução. Isso é um alô para o mundo. Isso é o começo de uma jornada. Se ela vai continuar ou não, não depende de você, nem do mundo.
Bem-vindo a cabeça enlouquecida dela.
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